Lula e os Stones
A primeira vez que tomei conhecimento da existência de Lula foi por volta de 1975. Eu era um jovem metalúrgico no ABC, mais precisamente em São Bernardo do Campo. Tempo de ditadura braba, governo do general alemão Geisel, tremendo linha-dura, censura à imprensa, comunistas ainda morrendo nos porões do DOI-CODI, DOPS, AI-5 em pleno vigor, etc... Por esta época os industriais nacionais e estrangeiros viviam seu eldorado. Não se podia fazer greve, os sindicatos não tinham espaço para defender de fato seus filiados, o que havia era um peleguismo escancarado. No sindicato dos metalúrgicos da cidade de São Paulo, por exemplo, reinava absoluto já por mais de vinte anos um tal de Joaquinzão, amicíssimo dos manda-chuvas da época. Comandava com mão de ferro, diziam que ele entregava pelo menos dois “agitadores” e “subversivos” aos órgãos da repressão antes do almoço todos os dias.
Beirava os 55 anos, sua figura lembrava um pouco o Sarney com umas pitadas de Maguila, forme a horrível imagem em sua mente. Um pesadelo, de fato. Usava uns ternos de risca de giz muito em moda na época de Clark Gable, o homem, porém, era cavalo de boca macia, fácil de montar, era só dar-lhe a alfafa adequada, pois não?
Bem, contra este baú de relíquias surge no ABC paulista o intrépido bagual Luiz Inácio da Silva (ainda não era Lula). A princípio timidamente, com algumas cartinhas publicadas no jornalzinho do sindicato, reclamando (com todo o respeito aos nossos garbosos governantes militares) de algumas coisinhas que por assim dizer, não iam lá muito bem para os companheiros de classe, sabe?
Escrito por José de Arimatéia às 23h54
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No tal jornalzinho, aparecia a foto de Lula, sem barba, só de bigode na coluna “palavra do presidente”. O carisma ainda era incipiente, mas ele já encarnava ares novos no ranço sindical da época, pelo menos era “autêntico”, torneiro mecânico da Aços Villares, perdeu o famoso dedo num acidente de trabalho, certamente não era pelego. Era de fato um companheiro.
Mas não era besta.
Fazia lá sua oposiçãozinha comportada junto aos patrões e ao governo e ia levando a vida sem muito esforço, que isso de trabalhar não estava com nada, como se dizia então.
E assim foi até que em outubro de 1978 o homem endoidou. Estourou espontaneamente uma greve na fábrica de caminhões Scania, e o sindicato, Lula à frente, saiu peitando todo mundo na defesa das reivindicações dos trabalhadores. O resto da história é por demais conhecida e não preciso ficar aqui repetindo e cansando sua paciência.
Escrito por José de Arimatéia às 23h53
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O que quero abordar são alguns pequenos fatos que tive a oportunidade de presenciar. Como eu dizia, Lula rapidamente virou um ídolo, só falávamos no cara, de sua coragem, de sua ousadia em enfrentar a ditadura, ainda mais depois que o AI-5 caiu, e após a saída do alemão e a entrada do Figueiredo com sua proposta de redemocratização, anistia, pluripartidarismo, parecia que um tsunami democrático invadia a nação. E quem lá "envinha" surfando no alto da onda? Ele mesmo, o carcará destemido, Luiz Inácio da Silva, o Lula, defensor dos fracos e oprimidos, cabra da peste, retirante nordestino acostumado a privações, macho de três culhões que desconhecia o medo, ora, pois. Quando ele conseguia brecha para fazer seus discursos, eram momentos memoráveis. Sua voz, hoje amplamente conhecida reverberava nos microfones, desancando os patrões e o governo, insuflava os trabalhadores num tom messiânico, elevando os ânimos quase a um êxtase. Ele era bom nisso, acredite.
Como era proibido fazer greves e ainda vivíamos o AI-5 em outubro de 1978, a polícia caiu de pau em cima dos sindicalistas, dispersando na porrada os piquetes, tentativas de assembléias, passeatas e qualquer tipo de manifestação pública e ainda ameaçando prender os líderes do movimento por infringirem a Lei de Segurança Nacional. São Bernardo estava um caos. A gente saia do trabalho à tarde e volta e meia encontrava comandos da PM parando os carros, e mais de uma vez tive que alterar meu trajeto por causa do gás lacrimogêneo ainda pairando em determinados pontos onde houvera um conflito recente.
Escrito por José de Arimatéia às 23h52
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O fato é que os grevistas eram heróis. A Scania ameaçou demiti-los, não pagar seus salários, denunciá-los aos órgãos de segurança, faziam todo tipo de pressão na tentativa de enfraquecer o movimento. E a peãozada, firme, segurava a terrível bronca. Os dias passavam e a situação dos grevistas começava a ficar difícil, o dinheiro acabando, os salários retidos e nada de solução.
Para os de menores salários a coisa começou a se complicar a ponto de faltar comida em casa. Rumores de crianças passando fome, gente vendendo seus bens para comprar alimentos. Nas demais empresas onde não estavam ocorrendo greves, os sentimentos de indignação e solidariedade aumentavam na mesma proporção. Circulavam boletins clandestinos emitidos pelo sindicato, que àquela altura tinha status divino perante os trabalhadores. Líamos com avidez as notícias, embora a empresa formalmente houvesse determinado que tais publicações não deveriam circular, sob pena de sanções legais. Tal era o clima na ocasião.
Entretanto, o sindicato liderou um movimento emergencial para ajudar os companheiros grevistas em suas dificuldades. A igreja matriz de São Bernardo cedeu espaço para que doações de alimentos, remédios e mesmo dinheiro, fossem feitas e centralizadas naquele local. Em seguida o produto das arrecadações voluntárias seria distribuído entre os grevistas.
Escrito por José de Arimatéia às 23h51
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Excitadíssimo, um grupo de cinco colegas, todos jovens na casa dos vinte e poucos (muito poucos) anos, eu incluso, resolveu colaborar com a iniciativa. Compramos tantas caixas de leite em pó Ninho quantas podiam caber no porta-malas do meu Chevette e combinamos levá-las na igreja após o expediente. Assim foi feito e eu mal podia esperar para ver-me face a face com o famoso líder metalúrgico, pois diziam que ele aparecia por lá à noite, após as batalhas diárias.
Chegamos por volta das 21h e o local estava elétrico, respirava-se um ar de democracia, parecia que o mundo acabava de ser reinventado e este Brasil grande e potente ia mostrar a sua cara. Logo que estacionamos, vários companheiros acercaram-se do carro e começaram a nos ajudar a descarregar o leite em pó, levando as caixas para o salão paroquial que ficava atrás da igreja. Havia apreensão nos olhares daqueles operários, mas também um quê de desafio, uma certa pose de poder, de “metalúrgico unido, jamais será vencido”, uma atitude de confiança, e então vi Lula.
Escrito por José de Arimatéia às 23h51
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Digo sem receio que se a primeira impressão é a que fica, aquela não ficou bem. Na parte mais ao fundo do salão, sentado a uma mesa com outros membros do sindicato, tomando cachaça e comendo coxinhas lá estava o todo-poderoso líder daquela guerra. E não estava nada sóbrio, aliás, estava bem embriagado. Falando alto, gesticulando e achando a maior graça em algum dito pitoresco que havia sido contado ali, ele parecia estar se divertindo muito. Não sei se tal comportamento estava adequado ao momento sério porque passavam as famílias dos grevistas necessitados. Entreolhamo-nos e decidimos que não seria preciso levar nosso apoio explícito até ele. O gesto da entrega do leite já estava de bom tamanho. Mas o que ficou gravado na retina foi o contraste pelo menos aparente, entre a crítica situação vivida na região e a total descontração daquele grupo de pinguços. Enfim...
Anos mais tarde em 1984, quando nasceu minha filha ainda em São Bernardo, resvalei em Lula pela segunda vez. Foi justamente no berçário da maternidade por volta das 10h da manhã de um dia útil qualquer. Eu estava lá corujando minha nenê novinha em folha, e eis que começa um certo alvoroço na entrada do dito berçário. Quem surge ladeado por dois puxa-sacos? Ele mesmo. Foi entrando com um sorriso largo, cumprimentando quem estava por ali, inclusive eu, muito simpático. Estava visitando um recém-nascido de um amigo seu. Mas acredite, quando passou por mim senti um indistinto e forte cheiro de bebida alcoólica!
Escrito por José de Arimatéia às 23h50
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Nunca mais estive perto de Sua Excelência depois disso. Ainda ouvi, porém, um terceiro testemunho da etílica preferência do moço mais recentemente. Estava eu na piscina do condomínio de um amigo numa praia do litoral norte de São Paulo, a qual não vou revelar o nome por razões óbvias de segurança. Debaixo do guarda-sol conversávamos, meu amigo, eu e um senhor já idoso, sobre aquele episódio do jornalista americano que o presidente quis expulsar do Brasil porque o sujeito tinha declarado em uma reportagem que Lula bebia além da conta.
E não é que o cavalheiro que estava conosco disse: “Bebe sim e muito e sempre bem acompanhado por sua esposa, que é tão boa de copo quanto ele”. “Como assim?” Indagamos a uma só voz.
Ai o velho contou que tinha uma casa na praia, vizinha de uma outra pertencente a um figurão da high society. O referido nobre costumava receber o primeiro casal da república com freqüência nessa bela residência, mesmo antes de eles se tornarem o primeiro casal.
Escrito por José de Arimatéia às 23h49
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O que ocorria ali era digno da melhor vídeo-cassetada do Faustão. Consta que o casal, o anfitrião e demais convivas, em alegres churrascos de confraternização, bebiam de rolar na grama e na quadra de areia existente na tal casa. Depois tomavam banho de mangueira para recobrar um mínimo de decência e domínio das ações, e então, trançando as pernas, ia todo mundo dormir. Não sei se é verdade ou não, mas o homem que relatou é um sujeito sério, não iria inventar um deboche desses, penso eu.
Bem, eu contei essas coisas todas porque me lembrei de uma passagem num programa sobre a história dos Rolling Stones. Brian Jones, morto prematuramente, afogado em sua própria piscina, por overdose foi a cabeça pensante da banda desde seus primórdios até sua morte. Multi-instrumentista brilhante, são dele arranjos antológicos dos principais hits dos Stones da época.
As apresentações da banda causavam um frisson incontrolável nas mocinhas e elas literalmente atacavam os membros do grupo, rasgando suas roupas, beijando e abraçando os caras, que via de regra tinham que fugir escoltados pela polícia.
Escrito por José de Arimatéia às 23h49
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Certa vez após uma dessas peripécias, Brian Jones teve um acesso de riso e não conseguia parar (também devia estar drogado, é óbvio). Quando conseguiu se controlar explicou: “Como é que essas garotas podem ficar loucas por Mick Jagger? Se elas o vissem no banheiro pouco antes de entrar no palco, conheceriam o verdadeiro Mick e não se atirariam sobre ele desse jeito”.
As pessoas vêem o que querem ver e não o que deve ser visto de fato. Brian tinha razão: Mick é apenas um homem, mas que talento! E Lula é apenas um homem, mas que desapontamento. Um está na estrada há mais de quarenta anos e ainda encanta seus netinhos. Outro está no poder há três anos e não engana mais nem os marrecos da Granja do Torto. Só engana o admirável gado novo que continua querendo ser enganado. É só olhar as pesquisas do IBOPE. Olha o homem lá de novo. Acho que vou me mudar para o Iraque. Lá pelo menos o Saddam está preso.
Escrito por José de Arimatéia às 23h48
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