O poder da fé
Vamos chamá-la de Estela. O nome é fictício, a história não. Nem feia, nem bonita, sem atrativos especiais. Sentia-se como alguém que poderia ainda chamar a atenção mais por curiosidade do que por seus dotes físicos. Há muito já tinha ultrapassado o ponto em que as mulheres podem literalmente enlouquecer um homem, se é que alguma vez na vida tivesse tido esta capacidade. Poucos amores, algumas desilusões, um namorado que queria casar e ela não; outro que ela queria para marido e ele não. Vai daqui, vai dali, chegou a um ponto em que a solidão bateu forte e ela precisava preencher o vazio de alguma maneira.
Mulher séria, não se prestando a vulgaridades e baixarias, ainda mais agora na casa dos quarenta com o pai idoso e viúvo precisando de seu apoio... Não deixaria de se dar ao respeito. Mas como sentia falta de um parceiro! Um companheiro, alguém para compartilhar sua vida, seus medos, angústias, alegrias e, é claro, sua cama.
Mercado difícil para ela. Chegou a colocar anúncios em revistas especializadas, sites de relacionamento da internet, mas tudo o que obteve como resposta foram propostas indecorosas ou idiotas de sujeitos que só pensavam em sexo. “Esses caras só pensam com a cabeça do pau, meu Deus! OK, também gosto, mas a vida não é só isso.”
Escrito por José de Arimatéia às 01h02
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Por falar em Deus, Estela começou a cogitar da possibilidade de encontrar respostas na religião. Não que fosse religiosa, longe disso, fora batizada na Igreja Católica, mas era omissa quanto a praticá-la, nem na missa ia. Andou perambulando, por assim dizer, por algumas igrejas e templos variados de variadas seitas e religiões.
Achou algumas interessantes, outras francamente comerciais, com frases tipo: “Jesus é gracinha, então dê dinheiro para construirmos um templo maior para esta belezinha de Jesus”, ou aconselhamentos profundamente “religiosos”, como: “Você usa camiseta de propaganda de candidato a deputado da última eleição dois números acima do seu para dormir, enche a cara de creme, diz para seu amorzinho para fazer depressinha porque está com sono, cansada ou com dor-de-cabeça e depois não sabe a razão de ele tê-la traído? Minha cara fiel, não é assim que se faz. Jesus não gosta, sua tolinha, você tem que cativar seu amor”, e outras que-tais. Achou uma pouca-vergonha.
Escrito por José de Arimatéia às 01h02
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Em outros recintos de adoração deparou-se também com situações que beiravam a mais pura loucura, onde habitavam indivíduos furibundos fazendo discursos desconexos e em altos brados, praticamente chamando Jesus para a briga contra os fariseus, idólatras, apóstatas, falsos profetas, filhos de satanás e daí para cima. Teve um sujeito inclusive, que no auge da gritaria entrou numa espécie de transe, começou a espumar pela boca, revirou os olhos e caiu espalhafatosamente do alto do palco em cima dos fiéis. Foi um deus-nos-acuda. Sentiu-se num hospício.
Mas Jesus entrou para valer na sua vida, quando ela menos esperava. Num sábado qualquer, durante mais uma de suas peregrinações passeando aleatoriamente de carro pelas ruas de sua cidade, avistou um edifício que lhe chamou a atenção. Parou o carro e desceu para ver melhor. Templo enorme, suntuoso, como nunca vira igual. Detalhista, prestou mais atenção aos símbolos desenhados, não entendeu, mas achou de muito bom gosto. Espiou para dentro da construção e percebeu que havia uma fila enorme iniciando-se lá na frente e chegando quase às portas do templo. Ficou intrigada.
Juntou-se ao povo dali sem saber o que iria encontrar. À medida que a fila se movimentava, ela logrou discernir um som calmo que dominava o ambiente. “Harpas!” Eram harpas tocando lindamente, era um som divino e repousante que parecia envolver a todos ali. Então notou que havia alguém falando num tom calmo e convidativo, dizendo mais ou menos assim:
Escrito por José de Arimatéia às 01h01
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“Sim meus irmãos e irmãs, o Senhor esteja convosco. O Pai celestial enviou sua divina mensagem a nosso patriarca, o bispo Aristeu, dizendo: ‘Aristeu, vá e pregue as boas novas de Meu Reino, funde a minha igreja no seio da Humanidade e traga para a única salvação, todos aqueles que crêem em mim e em ti, meu único e verdadeiro profeta.’ O fim se aproxima caros irmãos e fiéis, devemos nos desfazer de bens materiais, devemos destruí-los simbolicamente, bem aqui na congregação, a única verdade pertence a este rebanho....” e prosseguia nesse tom. Era um homem, vestido com o que parecia ser um manto sobre a roupa comum. Cabelos cuidadosamente penteados e fixados com gel, feições graves, mas algo efeminadas, parecia estar maquiado, pois o rosto tinha um certo brilho, idade indefinida, talvez uns cinqüenta anos.
Enquanto prosseguia na fila que andava, Estela notou que as pessoas levavam dinheiro, jóias, relógios nas mãos. Notou também que na parte correspondente ao altar nas igrejas católicas, havia uma espécie de pira acesa, onde chamas se elevavam e as pessoas estavam jogando seus valores ali dentro! O tal pastor maquiado exortava-as: “Joguem, joguem meus irmãos e irmãs e eu lhes asseguro que esses sacrifícios queimar-se-ão apenas para o mundo, mas não para o espírito de Deus”. Ficou estupefata.
Desejosa de ver de perto semelhante milagre, tirou uma nota de dez da bolsa e foi chegando até o “local de sacrifício” acompanhando a fila. As chamas crepitavam e ela não podia acreditar que as pessoas estivessem destruindo seus bens daquele jeito, inclusive devia de ser até crime, pois estavam queimando notas de dinheiro!
Escrito por José de Arimatéia às 01h00
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Eis que chegou sua vez. Estela aproximou-se da pira até quanto isto era possível e olhou lá dentro para ver as coisas sendo queimadas. A princípio não viu o fundo, que aliás era bem fundo. Tinha alguma coisa errada, era estranho , não sabia bem por quê. Então percebeu o que era. Ficou tão surpresa que nem se deu conta que quase gritou quando disse: “O fogo é falso, as coisas jogadas estão todas lá no fundo!”.
Por alguns segundos pairou um silêncio sepulcral no ambiente. Ato contínuo, alguns murmúrios e frases tipo: “Fogo falso? Que sacanagem é essa, pô?” “Meu relógio, quero meu relógio de volta” Mas então, o sacerdote engomado, com cara de grande raiva, apontou para ela um dedo acusador e bradou: “Peguem a herege, ela está tentando desvirtuar nossa cerimônia.”
Saindo não se sabe de onde, surgiram uns seguranças vestidos de negro, cada um com cara de mais facínora que o outro e investiram na direção da pobre Estela. Porém, o mal já estava feito, o murmúrio virou grande revolta e os gorilas não conseguiam chegar até onde ela estava, pois tiveram que começar a proteger a pira, o pastor e os demais pertences do templo, uma vez que os crentes estavam ameaçando pôr tudo abaixo.
Escrito por José de Arimatéia às 00h55
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Aproveitando o empurra-empurra e alguns safanões que já começavam a sobrevir, Estela foi tratando de se esgueirar rumo à rua, antes que a coisa esquentasse de vez. E esquentou mesmo. O pau quebrou e parece que o religioso envaselinado foi quem mais apanhou. Só não foi linchado porque a polícia chegou e o resgatou com o manto em frangalhos e o cabelo cheio de terra e em total desalinho. Depois se descobriu que o pastor era na verdade um candidato a vereador derrotado de uma cidade vizinha que estava tentando a sorte naquela profissão. A pira foi irremediavelmente destruída, os seguranças arrumaram empregos em casas noturnas, o bispo Aristeu nunca foi localizado. Desconfia-se que ele nem exista ou então foi arrebatado pelo Senhor, ou queimado na pira, sabe-se lá.
Escrito por José de Arimatéia às 00h54
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Estela não viu nada disso acontecer. Após evadir-se da cena do crime, voltou para casa triunfante, saboreou sua vitória em particular, não contou nem para o pai e dizem que continua a procurar marido. Mas tomou gosto pelas investigações de fraudes. Foi vista recentemente num terreiro cheirando garrafas de cachaça esvaziadas por pais-de-santo a conferir se era mesmo a “marvada” ou água com açúcar que esses dissimulados poderiam estar ingerindo e depois dizendo que não sentiam efeito do álcool quando possuídos por uma entidade. Eles que se cuidem. Estela não perdoa.
Escrito por José de Arimatéia às 00h53
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