Dia das crianças I
Ontem foi legal, eu gosto do “dia da Criança”. Tenho um filho de 7 anos que curte de montão a data, com tudo que tem direito: dormiu na véspera com os amiguinhos na escola, teve festinha na manhã seguinte, com pecinha de teatro e tudo o mais. Depois, almoço com a família, depois fomos no clube, depois na casa de amigos que tem crianças da mesma idade, depois lanche, depois brinquedos. Ufa! A maratona começou 8 da manhã e só se encerrou por volta das 11 da noite. Um esforço gostoso, mas considerável para um “garotão” como eu. Tenho outro casal de filhos, mas são adultos e a história é outra. Depois eu conto.
Muito bem, cansaço legal, missão cumprida e agora vamos dormir, certo? Errado. Eu moro num prédio de 20 andares, no terço superior. Quer dizer, o barulho lá do chão pouco me afeta, mas ontem foi diferente.
Escrito por José de Arimatéia às 13h27
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Dia das crianças II
Tinha acabado de pousar a cabeça no travesseiro quando começou o alarido, a princípio não atinei de onde. O que seria aquele ruído horrível? Inferno de Dante? Terremoto no Brasil? Parecia aqueles avisos de ataque inimigo, pedindo para a população buscar refúgio em abrigos nucleares. Nem banda heavy-metal chapada de overdose, afinando os instrumentos faria barulho pior. E olha que eu gosto de rock!
Levantei-me, fui até a janela da cozinha e então divisei o quadro.
Um veículo, tipo “Brasília amarela com roda gaúcha” tinha estacionado, naturalmente sobre a calçada e descarregado duas caixas acústicas de proporções monumentais. Não sei como conseguiram enfiar aquilo na dita Brasília. Não pude a princípio descobrir o condutor de semelhante veículo, mas havia vários indivíduos de ambos os sexos, praticando o que me pareceu um ritual de dança primitivo de alguma tribo perdida.
Escrito por José de Arimatéia às 13h26
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Dia das crianças III
Pareciam humanos, já que se vestiam como tal. Bem, mais ou menos. Daqui de cima pude discernir bermudas, camisetas e tênis com luzes, algumas cabeleiras de todas as cores do arco-íris, do tipo que os selvagens apreciam. Talvez fossem membros de alguma religião nova, ou missionários em trabalho de conversão de novos adeptos. Penso que por este motivo é que faziam questão de parar os carros que vinham pela rua e tentassem convencer os atônitos passageiros a aderir às suas sadias práticas, ali mesmo, naquele momento. Parece que a catequese não deu muito certo. As pessoas quando percebiam do que se tratava, procuravam evadir-se mais rápido possível.
Escrito por José de Arimatéia às 13h25
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Dia das crianças IV
Foi quando eu finalmente decifrei, ainda que parcialmente, que som era aquele de dez mil decibéis. Era uma espécie de música. Distorcida, sim, extremamente desafinada e brutal, mas era música! Os selvagens tentavam se comunicar, parecia um tanto animalesco, mas era apenas música inofensiva. Comecei a prestar atenção, e qual não foi minha surpresa ao perceber que o dialeto ali falado era muito parecido com português. Maltratado, muito maltratado de fato, tanto que só pude captar uns cinco por cento. A letra da música, se pode-se dizer assim, falava do velho problema humano de amor e traição. Era mais ou menos assim: “num adianta qui eu vô dá isculachu, mi chama di putona só purque robei teu machu”. Entre outras palavras pronunciadas em meio àquela cacofonia de grunhidos também distingui: “chupa”, “cona”, caráio”, “mano” e outras pérolas.
Escrito por José de Arimatéia às 13h24
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Dia das crianças V
Após cerca de meia hora comecei a me preocupar. Aquelas manifestações culturais poderiam não agradar a todas as famílias moradoras do bairro, e pela disposição dos manifestantes, aquilo parecia que não tinha hora para acabar. Era bem possível que algum morador, insensível ao legítimo direito à diversão se alterasse e causasse algum contratempo ao simpático grupo que alegremente tomava conta da rua e dos ouvidos.
Escrito por José de Arimatéia às 13h23
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Dia das crianças VI
Pensamento profético. Eis que chegou a polícia, eterna desmancha-prazeres para acabar com a festa. Nada sério, apenas dois camburões cheios de soldados armados e com coletes, Percebi claramente que no grupo de folgazões havia mesmo pessoas incultas, pois fugiram rapidamente à aproximação dos representantes dos colonizadores, portando calibres doze e com caras de poucos amigos. Correram com grande presteza em todas as direções, de modo que não foram capturados. Só ficaram uns três componentes da súcia, que foram rapidamente convencidos a desligar o som, assim mesmo após os policiais terem explicado pacientemente que nem todas as pessoas compartilhavam de seu entusiasmo à uma da manhã de um dia útil. Ato contínuo, foram convidados gentilmente a adentrar um dos referidos camburões, sendo que dos três hominídeos, dois foram dóceis, mas o terceiro precisou de uns pescoções mais viris para concordar. Cinco minutos depois destes fatos, o silêncio reinava absoluto. A polícia foi embora e o veículo do bando foi também, dirigido por um policial.
Escrito por José de Arimatéia às 13h21
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Dia das crianças VII
Ainda aguardei alguns momentos para voltar para a cama, embriagado e porque não dizer, ensurdecido por esta experiência tão interessante. Pude travar, mesmo à distância, conhecimento com legítimos representantes do futuro de nossa nação.
Escrito por José de Arimatéia às 13h20
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Dia das crianças VIII
Pessoas boas e autênticas que estão criando um novo estado de coisas, até mesmo um idioma novo, ininteligível aos não-iniciados. Sua forma de se expressar, gutural, rude, faz lembrar filmes antigos de habitantes das cavernas, simples e diretos, nada de metas sofisticadas, resultados definidos por objetivos estratégicos, gestão moderna, nada disso. Simples e direto: demarcar território pela urina e pela força se necessário, apossar-se pura e simplesmente da fêmea da espécie sem grandes explicações filosóficas ao proprietário atual, nem à fêmea em questão, que pode ser convencida através de uma mera surra. As soluções das eventuais desavenças feitas através do embate físico, com ou sem auxílio de meios facilitadores da solução, ou seja armas. Nada de longas e tediosas discussões. Elevação a níveis de consciência privilegiados, por meio do consumo de energéticos mentais em forma de pó, fumaça ou líquidos injetáveis. Em suma, viver bem, pouco, mas bem. Isso é que é viver, como diriam Pumba, Timão e Simba. Hakuna Matata!
Escrito por José de Arimatéia às 13h19
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Dia das crianças - Final
Pois é, acho que perdi o bonde da história e agora é tarde para embarcar nele. Como pude perder décadas da minha vida sem conhecer este lado tão poético?!
Que pena. Não faz mal, estou planejando entrar numa gangue.
Nem que seja para ajudar a despachar pé-de-chinelo.
Krigh-ah! Bandolo! Mim, funkeiro. Tu, gente.
Escrito por José de Arimatéia às 13h18
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