Workaholic III (conclusão)

Dito e feito. No dia fatal, o que se viu foi choro e ranger de dentes. Aaron viu e ouviu as notícias da desgraça por ele perpetrada através da mídia, foi consolado (consolado?) por amigos e colaboradores, chorou lágrimas de crocodilo, foi falar com o rabino, arrependeu-se, pediu perdão a Deus. Naquela noite ao deitar-se não quis nada com sua Raquel, como de resto já não vinha querendo fazia meses, sentiu uma pontada no peito, martelada demolidora, o braço formigou, ele sentiu ânsias de vômito, tentou levantar-se para ir ao banheiro, levou outra bordoada e desmoronou, a vista escureceu, só de longe percebeu que Raquel gritava em desespero. Depois não viu mais nada.

Foi enterrado no dia seguinte. Tinha 39 anos, sem filhos (não dava tempo de fazer). Houve muita coisa a menos nesta partida de Aaron: lágrimas a menos do que se esperava, em menos de uma semana foi substituído na empresa, em menos de um mês já não se lembravam tanto dele, em menos de um ano Raquel se casou de novo com um Abraão qualquer da comunidade. Só é bem lembrado pela população da cidade que ele quase devastou. Na empresa os adjetivos mudaram, começou-se ouvir "arrogante", "insensato", "inflexível". Em tempo, o tremendo corte de pessoal foi suspenso, revisto e reduzido substancialmente. A empresa ainda está lá. Aaron não.



Escrito por José de Arimatéia às 14h09
[] [envie esta mensagem]



Workaholic II

Fumante inveterado, comia mal, dormia pior, bebia dúzias de xícaras de café. Sua pressão arterial não era boa, contraiu diabetes, era terrivelmente irritadiço e gritão com quem quer que fosse.

 

Afinal aos 38 anos de idade foi promovido a vice-presidente executivo de uma importante divisão da empresa em São Paulo. No momento em que assumiu a tal divisão, apenas uma semana depois, anunciou um ambicioso plano de recuperação dos resultados daquela planta fabril. Ficava localizada  numa cidade do interior e ele chamou o padre e o prefeito para uma reunião. Foi logo dizendo que sentia muito, mas iria demitir 2.000 dos 4.000 empregados. Em determinadas situações, marido e mulher perderiam o emprego simultaneamente, ou seja, as fontes de receita de uma família iriam para as picas, secariam cem por cento de uma única vez. Seriam todos avisados por telegrama, para evitar tumultos na porta da empresa. Alertou que reforçaria a segurança e que pessoalmente não estaria presente no dia do holocausto. Que bela alusão ao horror nazista.

No conselho de administração da empresa o que se ouvia eram elogios do tipo: agressivo, arrojado, brilhante. Prometeram-lhe bônus adicional, carro importado automático, passagens de primeira classe e outras mordomias reservadas a vampiros de seu naipe.



Escrito por José de Arimatéia às 00h51
[] [envie esta mensagem]



Workaholic I

Aaron Ebberman  só pensava em ser um executivo de sucesso, não um reles gerentinho de nível médio, mas o fodão, o cara que manda prender e manda soltar, o “Big Shot” enfim. Principalmente devido ao fato de ser judeu e ter ouvido seu pai contar histórias tenebrosas de campos de concentração, Auschwitz, Treblinka e outras filiais do inferno, onde semitas eram assados, sufocados, desnutridos, estuprados, estripados e outras desgraças, é que ele também sentia-se na obrigação de ser mais que os outros. Tinha que ser. Não poderia desapontar milênios de lutas e perseguições por que passaram seus ancestrais.

Seus pais eram pobres  e, apesar de filho único, não podiam pagar-lhe boas escolas. Mas ele era de fato muito inteligente e esforçado. Sua dedicação foi contemplada com a aprovação no vestibular da Politécnica da USP. Enfrentou preconceitos. Engoliu calado, sabia que alguns ou vários daqueles filhinhos-de-papai (e da-puta), bem-nascidos poderiam vir a ser seus subordinados algum dia. Formou-se com louvor para orgulho da comunidade judaica.

Conseguiu estágio numa empresa metalúrgica no ABC paulista. Sendo workaholic, logo se destacou, trabalhava duro, 12 a 14 horas por dia, mais se necessário. Aos 25 já era supervisor, aos 28, gerente e aos 35 anos, diretor. Implacável, exigente ao extremo com a equipe, só perdoava a primeira falha, na segunda o empregado já sabia: podia tomar o rumo do departamento pessoal. Era o rei do passaralho, temido e odiado. Importava-lhe mesmo a opinião do patrão e esta era a melhor possível. Sujeito eficiente este Aaron!

 

 



Escrito por José de Arimatéia às 00h35
[] [envie esta mensagem]



Pequenos paradoxos

Muitas vezes já pensei no porquê certas pessoas são promovidas. Parece que há uma predileção por ineptos no mundo corporativo. É espantoso como proliferam nos postos de comando, e parece que sempre se promove o mais incapaz de todos os candidatos. Isso me ofende, insulta a minha inteligência, magoa meu amor próprio. Já fui preterido algumas vezes, em geral por pessoas com menos escolaridade, mas mais puxa-sacos. Conheci um que telefonava para a casa do chefe no sábado à noite e dizia que estava saindo para buscar uma pizza e poderia aproveitar e trazer uma para o chefe também... “ora, com o maior prazer....imagine! Não custa nada”. É ou não é para vomitar? Um cara assim não merece morrer? E o chefe que promove e preserva um verme como este, merece o que?

Pergunta: Quem continuaria a trabalhar se recebesse 1 milhão de dólares in cash de uma hora para outra? Já ouvi muita gente boa dizer que falaria isto e mais aquilo para o chefe, antes de esfregar-lhe na cara a carta de demissão. Mas estas mesmas pessoas afirmam categoricamente que não se envolveriam em falcatruas para ganhar uma bolada por fora porque são honestas, têm princípios, jamais lesariam a empresa, e outras patacoadas deste naipe. Acho que tem algo de hipócrita nestas atitudes. Afinal o que são princípios éticos? Conheço empresas ou empresários, sei lá, que têm um visão muito particular sobre o assunto, tipo " a ética quem faz sou eu". É mais ou menos como um dos luíses da França que afirmou " o estado sou eu". Mudou o quê então?



Escrito por José de Arimatéia às 23h33
[] [envie esta mensagem]



[ ver mensagens anteriores ]





Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Cinema e vídeo, Livros
AIM -



 


Histórico
14/05/2006 a 20/05/2006
15/01/2006 a 21/01/2006
18/12/2005 a 24/12/2005
23/10/2005 a 29/10/2005
09/10/2005 a 15/10/2005
02/10/2005 a 08/10/2005
25/09/2005 a 01/10/2005
18/09/2005 a 24/09/2005
11/09/2005 a 17/09/2005


Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
UOL - O melhor conteúdo
BOL - E-mail grátis